segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A INGRATIDÃO A LA CARTE

 


Os possuidores de cultura cosmopolita tem conhecimento que a vida humana nos desertos do Oriente Médio é uma dádiva do camelo, o Camelus Dromedarius, aquele que possui apenas uma corcova e surge com uma facilidade espantosa nas fotos de turistas que visitam a região.

 

Trata-se de uma confirmação inegável de que alguma força superior de natureza foi de um capricho extremo na execução do “projeto” que culminou com a existência dessa espécie que chega a caminhar 150 quilômetros numa jornada diária transportando quase 200 kg.

 

Outros detalhes enriqueceriam a cultura enciclopédica do leitor, porém, não é esse o objetivo desta mensagem. A inexistência da gratidão humana é o foco central a ser comentado nessa atuação do homem que prima pelo usofruto extremo desses irmãos irracionais na sua capacidade de transporte e ultrapassando os limites da racionalidade, inclui a carne de camelos jovens em cardápios de  restaurantes de países árabes. Resumindo: come o provedor da dádiva.

 

Alimentos como a manteiga e o queijo derivados do leite da fêmea são  insuficientes quando hábitos alimentares predatórios são transmitidos de geração para geração através de uma cultura milenar. O sofrimento no período “pré-abate” e o grito pungente no momento extremo da morte violenta parecem ser convenientemente esquecidos na hora em que temperos especiais são os grandes companheiros do homem armado com talheres no ato final  e consumado da crueldade ingrata. O restaurante é o palco com cenário atrativo para ocultar da platéia o processo sanguinário que levou o alimento até o prato.

 

Humanos dotados de uma espiritualidade mais elevada já perceberam que o comentário sobre o camelo é apenas uma menção necessária  para gerar o raciocínio de que a cultura de consumo da proteína animal é extraordinariamente motivado pela ausência de exemplos com origem nas celebridades. Exatamente aqueles que seriam a ferramentas nobres para reparar milênios de crueldade.

 

O Sumo Pontífice que nos visitou recentemente escapou de um churrasco na Granja do Torto. Algo difícil de ocorrer para um Chefe de Estado (Vaticano) se considerarmos que nem George Bush se safou dessa “iguaria” na penúltima visita quando incluiu Brasilia no seu programa, porém, infelizmente,  o cardápio do Papa no Mosteiro de São Bento incluiu uma carne de vitela, o novilho com menos de um ano de idade criado nos moldes ideais para satisfazer a bestialidade “gourmeteana” (gourmet+humana) de quem o come.

 

Essa inclusão merece uma reflexão, pois surgiu com a necessária aprovação prévia da assessoria papal que participou de forma impositiva na preparação da visita. Talvez a nacionalidade alemã do Papa, nascido num país que idolatra o joelho de porco na culinária, explique  essa preferência carnívora.

 

Triste é concluir que não somente explica como ratifica o argumento de que a ausência de um exemplo é o incentivo maior à barbárie injusta na cadeia alimentar imposta pelos humanos de forma racional e abrangência tragicamente universal. Nesse contexto, só faltava a ingratidão que juntamente com a crueldade e a insensibilidade formam uma trilogia assassina.

 

Omar Manzanares
Assessoria de Imprensa para o Mundo Animal